Lava-pés: por uma eclesiologia do serviço

No texto da liturgia de hoje, aparece um símbolo singelo, mas de significado profundo: a bacia. No Antigo Testamento, ela era utilizada como instrumento de purificação e de serviço (cf. Ex 30,18; 38,8; 40,30-32; 1Rs 7,23-26). Já no Novo Testamento, a bacia surge em dois momentos marcantes: em João 13,5 e em Mateus 27,24.

Como bem nos lembra o Pe. Manuel Godoi, o significado da bacia depende de quem a utiliza. Em João, ela se torna símbolo do amor e do serviço, especialmente quando associada à toalha. Em Mateus, porém, a bacia representa a omissão e a covardia.

Curiosamente, a bacia também aparece em um dos sacramentos da Igreja: o Batismo. Mesmo quando a denominamos “Pia Batismal”, a Igreja deseja evocar a bacia da Última Ceia, e não a de Pilatos. A pia batismal não é mais a piscina de purificação dos judeus. Ela é símbolo mistagógico, que nos convoca a dar sentido ao nosso Batismo. Esse sacramento representa a imersão do fiel na comunidade dos seguidores de Jesus Cristo — uma comunidade eclesial, trinitária.

Jesus é um mistagogo. Repare bem: mistagogo, e não apenas pedagogo — ainda que tenha uma pedagogia própria. Mistagogo é aquele que introduz alguém no conhecimento do Mistério. Nesse sentido, Jesus é o mestre e catequista por excelência.

A celebração da Páscoa com os discípulos é um verdadeiro ritual de passagem. Nela, Jesus ensina sua última lição: é preciso lavar os pés uns dos outros. Isso significa ter compaixão, ser solidário, servir e amar incondicionalmente.

A bacia de Pilatos revela sofrimento — como advertiu sua esposa. Ela simboliza a omissão e a morte. Mas não qualquer morte: trata-se da destruição de um projeto de vida e libertação para o povo de Israel, substituído pela manutenção do projeto de exploração e violência do poderoso Império Romano. Na bacia de Pilatos, as águas não se movem: ela é apenas um utensílio de purificação superficial. Já a bacia de Jesus é um rito de passagem e um convite a continuar sua missão no mundo.

A bacia é, assim, símbolo da Igreja que lava, acolhe, perdoa, alimenta, purifica e liberta.

E então, em que bacia fomos mergulhados: na de Jesus ou na de Pilatos?

É importante ressaltar ainda que o gesto de Jesus foi marcado por um ritual, ao passo que o de Pilatos, não. Em “Sociedade sem ritos”, Byung-Chul Han reflete sobre a importância dos rituais para a coesão social e para a transmissão de valores ancestrais e sagrados. Nesse sentido, podemos dizer que, na cena da Última Ceia, há um ritual que cria relações e transmite um ensinamento novo. Já na cena de Pilatos lavando as mãos, não há ritual — o que sugere permanência, manutenção de um projeto que explora e mata no silêncio das horas e dos dias.

Por fim, Jesus lava os pés. Pilatos, as mãos.


Texto: Pe. Jairo Barbosa Moreira
Pároco da Paróquia São Pedro, Novo Planalto-GO
Adm. da Quase-Paróquia Nossa Senhora da Abadia, Bonópolis-GO

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